Engolir chiclete gruda no estômago?

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Chiclete engolido gruda no estômago - Verdade ou mito? 

Mito!
     Não é raro ouvirmos: "se engolir um chiclete, grudará no seu estômago e no seu intestino". Porém, é apenas um "mito" popular.
     Os aromatizantes e os adoçantes do chiclete são dissolvidos na saliva, enquanto a goma propriamente dita não é digerida, pois é formada por substâncias químicas resistentes. Sendo assim, caso seja engolida, passará praticamente inalterada pelo sistema gastrintestinal e sairá nas fezes.
     A possibilidade de alguma complicação existe caso a pessoa engula vários chicletes simultaneamente, pois poderiam obstruir alguns trechos  menos calibrosos do intestino ou sua conexão com o estômago. Outro problema é a asfixia, que pode ocorrer em crianças pequenas. Portanto, crianças, pelo menos até os dois anos de idade, não devem consumir chiclete!
     Assim, com exceção dos casos citados acima, não há problema em engolir um chiclete. Não é recomendado, pois não é um alimento. Mas, quanto a ficar grudado por anos dentro do nosso corpo, relaxe! No máximo eliminaremos um chiclete sabor cocô (só para descontrair).

Autor: Wésley de Sousa Câmara

Cianose labial

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     Por que os nossos lábios ficam azulados ou arroxeados quando "estamos com frio" ou quando ficamos muito tempo em uma piscina?
     Os lábios tem uma grande quantidade de vasos sanguíneos superficiais, que podem perder muito  calor para o ambiente, em baixas temperaturas. Nessas ocasiões, o fluxo sanguíneo é diminuído nos lábios, tornando-os frios (pois o sangue circulante é o principal fator que mantém a temperatura constante nessa região) e azulados/ arroxeados (o que indica uma baixa quantidade de oxigênio disponível, que deveria chegar pelo sangue).
     O mesmo fenômeno pode ocorrer com as extremidades dos dedos e, em ambos os casos, a coloração volta ao normal com o aquecimento corporal.


Autor: Wésley de Sousa Câmara

Referência:
MOORE, KEITH L. Anatomia Orientada para Clínica. 5ª Ed.

Está no ar o canal Saúde a Fundo no Youtube

   O canal "Saúde a Fundo" acabou de ser criado. Segue abaixo do vídeo de apresentação. Por favor, deem um "like" lá no Youtube e não esqueçam de clicar em "inscrever-se" abaixo do vídeo por lá. Em breve teremos várias novidades...

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IMPACTAÇÃO (ROLHA) DE CERUME


     O canal auditivo (meato acústico externo) humano possui glândulas que produzem substâncias “gordurosas” em sua porção mais externa, que quando associadas a células do próprio ouvido, poluição, bactérias e pelos, são chamadas de cerume. Esse cerume serve como proteção ao aparelho auditivo, dificultando o ressecamento do canal, protegendo de bactérias e de corpos estranhos (como a entrada de insetos).
     Vale dizer que o cerume produzido por nosso ouvido é “empurrado” para fora pelo nosso próprio organismo, sendo que nós devemos apenas limpar essa cera eliminada ao exterior, sem jamais inserir objetos (grampos, palitos ou “cotonetes”) no canal auditivo para limpeza, pois além de retirarmos a proteção do ouvido, podemos danificar o conduto auditivo e a membrana timpânica.
     Algumas pessoas acabam produzindo grande quantidade de cera, que pode se acumular no interior do ouvido (principalmente quando insere objetos, como as hastes com algodão/”cotonetes”), provocando o chamado “cerume impactado” ou “rolha de cerume”, fazendo com que o canal fique obstruído e gerando às vezes sintomas, como: coceira em ouvidos, ruídos/zumbidos, tontura, dor e surdez. Nesses casos é necessária a aplicação de uma solução otológica apropriada nos ouvidos e eventualmente, realização de “lavagem”, ambos após avaliação e recomendação médica.
     Como deve ter percebido, a formação de “rolha de cerume” não é sinônimo de falta de higiene, nem de falta de limpeza do ouvido (pois como vimos, só devemos limpar a parte externa das orelhas). Pelo contrário, muitas vezes a impactação de cerume é causada justamente pelo excesso de limpeza, ao inserir objetos no canal auditivo. Idosos e crianças também tem uma maior predisposição a ter essa obstrução do canal, assim como pessoas com deformidades no aparelho auditivo.
     Em nossa unidade de saúde da família realizamos as chamadas “lavagens de ouvido” em todos os pacientes com indicação, sem doenças ou alterações importantes do canal auditivo, reduzindo assim os encaminhamentos para otorrinolaringologistas. É um procedimento relativamente rápido e indolor, com baixíssimo índice de complicações quando realizado de forma correta e cuidadosa. Não há necessidade de equipamentos sofisticados e o profissional habilitado pode realizá-lo sem riscos. O paciente usa previamente, em casa, por 7 a 10 dias, uma solução otológica no (s) ouvidos (s) - Cerumin®, fazendo com que o cerume fique amolecido e saia facilmente durante o procedimento, que consiste na instilação de soro fisiológico morno no canal auditivo, com frequente verificação do canal por otoscópio. Quando o procedimento não promove uma remoção satisfatória do cerume, o paciente é encaminhado ao otorrinolaringologista para avaliação e remoção mecânica, com instrumentos específicos e apropriados.

Autor: Wésley de Sousa Câmara 
01/05/2017

Tudo o que você precisa saber sobre a Febre Amarela


     A febre amarela é uma doença infecciosa aguda, não contagiosa (não há transmissão de pessoa para pessoa, embora possa ocorrer transmissão da mãe para o filho, quando gestante), cuja manifestação principal é a febre. É causada por um vírus, sendo considerada no meio científico como uma flavovirose. É transmitida por insetos urbanos (Aedes aegypti - o mesmo que transmite Zika, Dengue e Chikungunya) e silvestres (Haemagogus sp e Sabethes SP). A forma urbana da doença não é identificada desde 1942, sendo atualmente a forma silvestre o grande problema.
     Nessa forma silvestre os “macacos”, embora não transmitam a doença (e não devam ser combatidos/mortos), são hospedeiros e locais de multiplicação desses vírus. Os mosquitos citados, ao picarem macacos que estejam contaminados, se contaminam com o vírus e depois podem transmitir esses microorganismos a seres humanos que estejam nessas regiões. 
     Após a picada do inseto, o homem não imunizado começará a manifestar sintomas dentro de 3 a 6 dias (algumas pessoas levam até 15 dias). Porém 2 dias antes desse homem ter sintomas, já haverá vírus em sua corrente sanguínea e um mosquito que o picar pode se contaminar com o vírus e transmiti-lo a outras pessoas. O mosquito contaminado (lembrando que apenas as fêmeas picam) pode continuar transmitindo o vírus por até 2 meses. 
     A porcentagem de mortes (letalidade) da doença gira em torno de 5 a 10% dos que manifestam algum sintoma. Porém cerca de 10% desses doentes evoluem para a forma grave e, considerando apenas esta última forma, a letalidade vai de 20 a 50% (e a morte costuma ocorrer entre o 7º e o 10º dia da doença). Entretanto, como a maioria dos casos não é grave, ocorre uma resolução (“cura”) espontânea da doença em 2 a 3 dias após o início dos sintomas.
     Como visto, a doença é séria, então vamos entender um pouco mais:

SINTOMAS E FORMAS DA DOENÇA:

- Forma leve: Febre alta (sendo que a frequência cardíaca não costuma aumentar nesses doentes, ao contrário da maioria das outras doenças febris), dor de cabeça (principalmente acima dos olhos), dores musculares e lombares, calafrios, náuseas, “tontura”.

- Forma moderada: além dos sintomas acima, já ocorre icterícia (amarelamento da pele e dos olhos), urina escura, alterações na função hepática (visto nos exames de sangue), hemorragias leves (como sangramento pelas gengivas e nariz).

- Forma grave: O vírus invade diversos órgãos do corpo, como fígado, baço, rins e coração. É caracterizada quando a febre alta reaparece após uma melhora inicial. Ocorre dor abdominal, pressão muito baixa, pouca produção de urina, hepatite, com lesão às células do fígado, gerando grandes alterações em exames de sangue (TGO/AST), hemorragias sistêmicas (com a pessoa vomitando ou evacuando sangue escuro), coagulação disseminada nos vasos sanguíneos e outras alterações desse processo de coagulação. Posteriormente pode ocorrer coma e óbito.

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL:

- No hemograma: Leucócitos (principalmente neutrófilos) reduzidos.
- VHS (que é um marcador inespecífico de inflamação, feito em coleta de sangue) próximo de zero.
- Na febre amarela grave: Aminotransferases (TGO/AST e TGP/ALT) acima de 1000 - o normal é pouco mais de 30; Diminuição de plaquetas, aumento do tempo de protrombina e queda do fibrinogênio do sangue (alterações de coagulação); bilirrubina total entre 2 e 10 mg/dL (aumentada, gerando icterícia).
- O diagnóstico específico pode ser feito encontrando IgM MAC (pelo método Elisa), a partir do 4º ou 6º dia após início dos sintomas ou ainda por isolamento viral e técnicas PCR, que já diagnosticam a partir do 1º dia da doença.

TRATAMENTO:

     Não há tratamento específico. É apenas dado um suporte clínico ao doente, controlando os principais sintomas. 

- Forma leve: hidratação (preferencialmente oral); analgésicos, como o Paracetamol (e não usar AAS ou outros antiinflamatórios, por aumentarem risco de hemorragias); banhos frios, se febre.

- Forma moderada: hidratação (oral ou venosa); analgésicos, como o Paracetamol (e não usar AAS ou outros antiinflamatórios); banhos frios, se febre; realizar exames laboratoriais para avaliar função do rim, fígado, entre outros parâmetros.

- Forma grave: internação em CTI, com cuidados específicos, contínuos e rígidos, de acordo com o quadro clínico. 

PROFILAXIA/PREVENÇÃO:

A prevenção da doença é feita com uso de roupas fechadas, de repelentes (que devem ser usados inclusive por CIMA das roupas, em spray), de telas em janelas e de vacinação, quando indicada. 

- VACINAÇÃO (“anti-amarílica”): Tradicionalmente seguia-se a “regra dos 10”: aplica 10 dias antes (da viagem para área de risco ou de recomendação de vacina) e adquire proteção por 10 anos. Pode haver reação grave em pessoas alérgicas a ovo, gelatina e eritromicina, por isso não deve ser aplicada nesses casos. Atualmente sabe-se que estão imunizadas todas as pessoas que receberam duas doses da vacina (mesmo que a última dose tenha sido há mais de 10 anos). Quem recebeu apenas 1 dose, há mais de 10 anos, basta tomar mais uma (reforço) e estará imunizada definitivamente.

- A vacina contra febre amarela já faz parte do calendário infantil, sendo dada aos 9 meses de idade (ou aos 6 meses, em alguns casos de maior risco) e reforço aos 4 anos. 

- Quem nunca tomou nenhuma dose contra febre amarela ou quem não tem carteira de vacinação para comprovar, deve tomar 1 dose e daqui 10 anos, o reforço. 

- Crianças que precisam tomar outras vacinas, podem tomar junto com a vacina da febre amarela, exceto as vacinas tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e tetra viral (sarampo, caxumba, rubéola e varicela).

     Algumas pessoas tem contraindicação de tomar a vacina, pois possuem maior chance de desenvolverem efeitos graves (que embora sejam raros, podem ocorrer), como: encefalite (inflamação no sistema nervoso), alergia grave (anafilaxia) e até mesmo “febre amarela vacinal” (doença causada devido à vacina, sendo esta forma mais grave e causando morte em até metade dos casos).

NÃO DEVEM SER VACINADOS:

- Idosos (60 anos de idade ou mais) com doenças graves ou com saúde debilitada. Os idosos saudáveis devem ser avaliados por um médico, que pesará riscos e benefícios, liberando ou não a vacinação. 

- Gestantes não devem ser vacinadas, a menos que estejam sob risco altíssimo (e nesses casos cabe ao médico avaliar risco/benefício de realizar a vacinação), pois podem gerar infecção no feto.

- Mães que amamentam seus filhos com menos de 6 meses de idade não devem ser vacinadas. Caso o risco seja muito grande, o médico liberará a vacina, porém a amamentação deverá ser suspensa por 28 dias (alguns autores dizem 14 dias). Vale dizer que, sendo isso feito, é bem provável que o leite da mãe “secará”, impedindo a continuidade do aleitamento, submetendo a criança a inúmeros prejuízos nutricionais e imunológicos. 

- Pacientes HIV positivos (salvo em casos específicos, avaliados pelo médico), em uso de altas doses de corticoides, em tratamento com quimioterapia ou com doenças ou retiradas do timo (órgão que fica dentro do tórax).

Observação: doação de sangue pode ser realizada após 1 mês de tomar a vacina. 

Autores: Wésley de Sousa Câmara e Sandra Ferreira do Couto Alves (Enfermeira - PSF). 
Fevereiro de 2017.

CONSTIPAÇÃO INTESTINAL ("PRISÃO DE VENTRE")


     Constipação intestinal ocorre quando há, por pelo menos três meses, necessidade do uso de laxantes para ter fezes amolecidas + ausência de "Síndrome do Intestino Irritável" + pelo menos 1 em cada 4 evacuações apresentando duas das seguintes características:

- Esforço para conseguir defecar; Fezes em “bolinhas” ou endurecidas; percepção de evacuação incompleta; percepção de obstrução ou bloqueio na passagem das fezes; Necessidade de manobra manual ou digital para facilitar a evacuação; Menos de três evacuações por semana.

DICAS:
- Realizar atividade física regular (não sedentário) é importante para ajudar o intestino a funcionar bem.
- Ingerir bastante líquidos (pelo menos 1,5 a 2 litros de água ao dia) e fibras (cereais, verduras e legumes) é fundamental.
- Evitar refrigerante, doces, balas, chocolates, excesso de proteínas (carnes), laticínios, massas, salgados, embutidos e produtos industrializados.
- Evitar segurar a evacuação, ou seja, você deve ir ao banheiro assim que tiver vontade.
- Procurar manter uma rotina (horário definido) para evacuar.
- Controlar o estresse emocional.
- Não realizar auto-medicação, pois alguns medicamentos PODEM (mas não devem ser suspensos sem recomendação médica) gerar constipação intestinal em algumas pessoas (antidepressivos, antiinflamatórios, antialérgicos, antiepiléticos, analgésicos opioides, antiácidos estomacais, suplementos de ferro, alguns antihipertensivos).

CONSUMIR À VONTADE:
- Mamão, laranja com os gomos, ameixa; Verduras em geral; Legumes e raízes (cenoura, rabanete...); Água e sucos naturais; Alimentos integrais; Cereais, aveia; Alimentos com probióticos.

Laxantes só devem ser usados em situações emergenciais (e com recomendação médica), pois seu uso rotineiro pode trazer dependência, perda de eficácia com o tempo e piora do quadro a longo prazo (por enfraquecimento da musculatura intestinal).

Opções: Óleo mineral, Sene, 46 Almeida Prado (medicamento homeopático à base de Sene), Bisacodil, Lactulose, Sorbitol, Tamarine®, Cáscara Sagrada, Supositório de Glicerina.

Autor: Wésley de Sousa Câmara – 2016

HIPERURICEMIA (ÁCIDO ÚRICO ELEVADO)


     O ácido úrico é uma substância produzida no fígado, que surge da degradação de proteína ("purinas") presente dos alimentos que ingerimos. Quanto mais purinas ingerimos, mais ácido úrico produzimos. Quando seu nível está elevado no sangue, gera a hiperuricemia. Com isso, o ácido úrico pode se depositar nas articulações, gerando uma dolorosa inflamação (a doença chamada "Gota", que afeta principalmente o primeiro dedo do pé). Quando os níveis encontram-se ainda mais elevados, pode também ocorrer sua deposição na pele (porém não há comprovação da suposta relação entre ácido úrico e descamação da pele). Os rins também podem ser afetados, com a formação de cálculos (pedras) de ácido úrico.

Fatores de risco para gota:
     Obesidade, hipertensão arterial, traumatismo em articulações, jejuns prolongados, bebidas alcoólicas, consumo excessivo de alimentos ricos em purinas, uso de diuréticos.

Tratamento da gota:
     Durante a crise de artrite são usados antiinflamatórios comuns, colchicina ou corticoides, sempre com prescrição médica. Após a crise, é feito o controle do ácido úrico com medicação específica para reduzir seus níveis.
     Geralmente (a menos que haja histórica de pedra no rim por ácido úrico e/ou níveis maiores que 13 mg/dl no homem ou 10 mg/dl na mulher) não se trata com medicamentos níveis elevados de ácido úrico, se a pessoa não tem sintomas. Nesses casos, apenas uma dieta apropriada normalmente é suficiente para reduzir esses níveis.

DIETA PARA HIPERURICEMIA E GOTA:

Não consumir: Bacon, porco, vitela, cabrito, carneiro, miúdos (fígado, coração, rim, língua); Salmão, sardinha, truta, bacalhau, ovos de peixe, caviar, marisco, ostra, camarão; Peru e ganso; Bebidas alcoólicas.

Consumir no máximo em pequena quantidade: Carne de vaca, novilho e coelho; frango e pato; lagosta e caranguejo; feijão, grão-de-bico, ervilha, lentilha, aspargos, cogumelos, couve-flor, espinafre.

Consumir à vontade: Leite, chá, café, chocolate, queijo amarelo magro, ovo cozido, cereais, pão, macarrão, fubá, batata, arroz branco, milho, mandioca, sagu, vegetais (couve, repolho, alface, acelga e agrião), frutos secos, doces e frutas (mesmo as ácidas).

Autor: Wésley de Sousa Câmara
Novembro de 2016

Triste abortamento... (Breve relato)



     Sou contra o aborto, mas hoje tive o desprazer de acompanhar o parto de uma criança de 21 pra 22 semanas de gestação. A mãe estava com a "bolsa" já rompida há um tempo, com sinais crescentes de infecção, tomando antibióticos e com risco de óbito por causa disso. Os obstetras iniciaram medicação para induzir o parto (abortamento), visto que não havia chances para o feto (pela idade gestacional) e havia risco potencial de morte para a "mãe". Ninguém sabia como nasceria o "bebê", se vivo ou morto. Apenas havia o consenso que, caso nascesse vivo, obviamente seria cuidado, entubado, medicado, levado para UTI neonatal, mas não sobreviveria muito tempo. Ela, ciente da situação, porém, em tristeza profunda, infelizmente deu à luz ao bebê vivo. Sim, eu disse "infelizmente". Com sinceridade, jamais achei que desejaria que um pobrezinho daquele não nascesse respirando. Mas então por que foi dito isso? Foi um sofrimento para o pequeno, que sequer tem capacidade de respirar, não tem órgãos totalmente formados e teve seu desenvolvimento interrompido pelo curso "natural" da vida; sofrimento para a mãe, que mesmo sabendo que não havia chances de vida, teve uma esperança cultivada dentro de si e isso apenas gerava mais dor; sofrimento para toda a equipe de médicos, enfermeiros, alunos e funcionários, que sentiram o drama, como se cada um estivesse perdendo um filho. 

     O bebê foi para a UTI e já estou há algumas horas sem informações. Não sei, caso ainda esteja vivo, quantas horas aguentará, mas a dor foi muito maior de ver o sofrimento a cada segundo daquela vidinha ainda em formação do que se ele já estivesse sido "levado ao céu para morar com os anjinhos" antes de sair do útero. Já era esperado que fosse um abortamento (embora tenha nascido vivo, tinha menos de 22 semanas e apenas 420 gramas, logo, é considerado como aborto), e mesmo que ele sobreviva (sabendo que é quase certo disso não acontecer, mas em medicina não existe a palavra "nunca" ou "sempre"), as sequelas em órgãos, principalmente na parte neurológica, podem ser graves. 
     Repito: sou contra o aborto, porém, nessa situação pedi a Deus que o levasse antes de nascer. Sim, acredito em milagres, mas isso não pode ser uma esperança alimentada inadvertidamente em nós e sim, uma dádiva de Deus que vem a alguns quando há um propósito e um bem maior. Se isso acontecer, ficarei feliz como se fosse filho meu sendo trazido de volta à vida, mas vivo como aprendi com Jesus: "Pai, seja feita a Sua vontade e não a minha". Triste pela situação, pela mãe, pela família, porém feliz em saber que a mamãe deve ficar bem. Uma vida foi salva e se a segunda será, não posso responder, mesmo com a estatística desfavorável em mãos.
     Por que fiz esse relato? Pois a criança transmitiu muita coisa a todos. Mas o que? Muita dor e sofrimento, tanto para ele, quanto para os que o acompanhavam. 
     Enfim, a vida é assim. Para salvar a mãe foi preciso interromper a gravidez, então foi feito o possível. Agora, o impossível (o bebezinho que cabe na palma da mão), fica nas mãos de Deus.

Autor: Wesley de Sousa Câmara

DESABAFO: Somos impotentes e arrogantes

 

     Amo a medicina, mas não posso deixar de ter muitas indignações com o pensamento dominante no meio médico. Um deles é o argumento que a maior prova de que muitas das novas técnicas diagnósticas e terapias são maravilhosas é que a expectativa de vida está aumentando. Porém parecem não enxergar que o idoso de hoje é a criança de DÉCADAS ATRÁS, que não era submetida a nenhum procedimento ou medicamento moderno. Se formos imediatistas, achando que a vida é reflexo apenas do presente, esse argumento até é válido. Porém, se formos realistas e considerarmos que a saúde do adulto é determinada por um processo complexo, que vai muito além do ambiente ou de sua genética e que as intervenções médicas na criança terão reflexos na vida adulta dela, ficaremos pelo menos "em cima do muro" e deixaremos para concluir se as intervenções atuais foram corretas ou não apenas daqui há uns 50 anos. No máximo, podemos dizer que muitos tratamentos que realizamos eliminam os sintomas e a fase aguda da doença. Entretanto, se isso representa cura, só o tempo dirá.
    Tenho evidências para acreditar que pouco curamos e que apenas aliviamos um problema momentâneo. Uma delas é a nossa dificuldade em lidar com doenças crônicas. A resposta médica geralmente é sempre a mesma: "não tem cura", "terá que tomar este medicamento durante toda a vida", "esta quimioterapia provocará regressão ou até eliminar o tumor, mas poderá lhe causar uma grave insuficiência cardíaca ou ainda induzir o aparecimento de um novo tumor". Mas como o homem moderno é imediatista, geralmente é apenas esse alívio momentâneo o que ele procura, mesmo que traga problemas futuros.
     Enfim, penso que deveríamos todos aceitar os nossos limites e enxergar que o conhecimento médico é "nada" perante a complexidade do organismo humano. Mas enquanto tivermos a arrogância de achar que dominamos o processo de Saúde/doença e que somos (alopatia) a visão suprema da medicina, estaremos amarrados, com um cabresto, vendo diariamente milhares de pessoas padecendo de problemas incuráveis e a nossa opinião continuará a mesma (e ridícula): "somos uma medicina evoluída, estamos no caminho certo, não precisamos rever nada e quem discorda das nossas ações é charlatão ou no máximo um defensor de uma medicina 'alternativa'".
     Não estou aqui combatendo a alopatia e sim, criticando a visão exclusivista que a maioria de seus seguidores possuem, pois achamos que o nosso umbigo é o centro do universo e olhamos com menosprezo para tudo o que por desconhecimento não aceitamos (desculpem-me pela generalização). Quem de nós, médicos ou estudantes de medicina, aceitaria alguém dizer que nós é que somos uma medicina alternativa ou complementar? Minha experiência de convivência me diz que 1 em cada mil estudantes aceitariam tal afirmação sem se revoltar.
     A visão moderna da sociedade mostra que Paracelsus estava errado, pois atualmente, não vale mais a expressão "Quem cura tem razão". Atualmente, tem razão quem segue os protocolos determinados pela visão hegemônica, que parte de premissas que tornam praticamente indefensáveis quaisquer outras visões. Acredito que o primeiro passo para que alcancemos uma maior eficiência é cada racionalidade médica reconhecer seus pontos fortes e suas deficiências, cada uma atuando quando for pertinente, a fim de que o bem estar do paciente seja o único alvo. Mas para isso precisamos perder o que mais combatemos, que é o "PRECONCEITO" e a "ARROGÂNCIA", sendo que o meio mais eficaz para que isso aconteça é apenas criticar ou rejeitar aquilo que realmente conhecemos a fundo (assim teremos argumentos e não seremos meros "papagaios", repetidores de opiniões de terceiros). Não podemos agir com ignorância, como advogados discutindo microeconomia. Dificilmente sairá algo produtivo de uma discussão, se os envolvidos não tiverem profundo conhecimento sobre o assunto debatido.

Por: Wésley de Sousa Câmara

A formação de um novo ser

   Você sabe como são formados os bebês ou quanto tempo leva para que surjam as principais estruturas desse “homenzinho” em formação? Vamos aprender de forma didática e resumida (o objetivo deste artigo não é dar uma aula de embriologia) todo o processo de origem de uma nova vida humana. Vale dizer que uma gestação normal tem de 37 a 42 semanas (contadas a partir da última menstruação). Se o bebê nasce antes desse tempo é chamado “pré-termo” (ou prematuro) e após, “pós-termo”.
   Tudo começa com a relação sexual do casal, mais precisamente quando o homem ejacula na vagina da mulher. No esperma (líquido esbranquiçado, composto principalmente por secreções da próstata, das vesículas seminais e por espermatozoides), também chamado de sêmen, há proteínas que coagulam logo após a ejaculação, tornando-o mais pegajoso e dificultando que os espermatozoides (células sexuais masculinas) retornem para a entrada da vagina. Soma-se a isso a presença de prostaglandinas nesta secreção, que são substâncias que promovem a contração uterina, auxiliando no processo de entrada desses espermatozoides para o útero e para as tubas uterinas. Caso a mulher esteja no período fértil, ou seja, seus ovários tenham liberado pelo menos um óvulo há pouco tempo, poderá ocorrer em uma das tubas o encontro de alguns espermatozoides com esse óvulo. Ocorre então a “fusão” de ambos (chamada “fecundação”) e a célula resultante migra de volta para o útero, enquanto vai se dividindo em um aglomerado de células. Por volta do 7º dia após a fecundação, esse aglomerado de células começa a invadir a parede uterina (endométrio). No final da 1ª semana, o “ovo” está superficialmente implantado no útero.

2ª semana de gestação:
   A implantação na parede do útero está concluída e um pouco mais aprofundada. Inicia a nutrição deste “ovo” pela mãe, mas não ainda por vasos sanguíneos (nesta fase é por glândulas uterinas).

3ª semana de gestação:
   É a época em que deveria ocorrer a menstruação da mulher (que não chega). Essa falta de sangramento menstrual é geralmente o primeiro sinal de gravidez. Quando ocorrem sangramentos, normalmente são pequenos e derivados da lesão uterina causada pela implantação do “embrião”. Ocorre o início da formação do sistema cardiovascular, com o surgimento de um coração primitivo e de uma circulação quase sem importância para a nutrição do novo ser.

4ª à 8ª semana de gestação:
   Nesse período são formados os principais órgão do corpo. O “embrião”, que era achatado, torna-se cilíndrico, em forma de “C”, na 4ª semana. Inicia-se a formação do intestino primitivo e surge o cordão umbilical. O embrião começa a tomar forma humana na medida em que vão se formando cérebro, membros, orelhas, nariz e olhos.
   Na 6ª semana começam a aparecer os dedos (ainda unidos) e as orelhas; os olhos se tornam evidentes; surgem os primeiros reflexos do embrião ao toque.
   Na 7ª semana os membros se desenvolvem, com início da ossificação nos braços. Ao final desta semana quase todos os principais sistemas (digestivo, cardiovascular), já estão formados.
   Na 8ª semana aparecem os primeiros movimentos voluntários dos membros; deixa de ser visível a “cauda” do embrião, que até então era vista (sim, quando surgimos tivemos uma “mini-cauda”).
   Esse período (4ª à 8ª semana) é tido como a fase crítica do desenvolvimento, pois é geralmente nele que surgem as má formações congênitas, quando há exposição a agentes nocivos (cigarro, álcool, alguns medicamentos...). 

Imagem ilustrando a formação e o tamanho proporcional do embrião nos 2 primeiros meses de gestação.
 
9ª semana ao nascimento (período fetal):
   Nesse período, o futuro bebê é menos susceptível a agentes teratogênicos (causadores de má-formações), pois quase todos os órgãos já estão formados e carecem apenas de maturação. Porém, ainda é possível a ocorrência de alguns danos, principalmente